Eu sei que miojo faz mal

Dias atrás, sem comida pronta e com preguiça de cozinhar, resolvi fazer um miojo para almoçar. E de gozação pensei em fotografar e postar no Instagram. Afinal, há quem até deixe a comida esfriar de tanto procurar o “ângulo perfeito” para “mostrar ao mundo” o que está comendo – mesmo que seja algo corriqueiro, tipo… Miojo. Não seria a primeira vez que eu ironizaria tal mania: ano passado tive de ir a uma emergência devido a dores nas costas que quase me impediam de dormir, causadas por um mau jeito na coluna; tomei medicação “na veia” para aliviar o desconforto e resolvi publicar uma foto do remédio no Instagram.

Mas decidi não postar absolutamente nada sobre o meu almoço, seja no Instagram ou no Facebook. Pois aí estaria a mercê de algumas das pessoas mais chatas da face da Terra: aquelas que adoram tretar por qualquer coisa nas redes sociais. Já imagino alguns dos comentários que viriam: “Que horror, comendo miojo, isso faz mal!”, “Cadê a salada?”, dentre outros “conselhos” irritantes.

Fora outras experiências próprias que citarei como exemplos:

  • Se reclamo do verão, vem gente me dar “conselho” do tipo “curtir praia” (no meu último texto falei que acho um saco), “me associar em clube com piscina” (me pagar a mensalidade que é bom, ninguém quer), sem contar a mentira de falar que o calor não mata;
  • Manifesto meu conforto com o inverno, aí falam das mortes pelo frio (que é um problema social e não térmico, para que menos pessoas morram de frio é preciso redistribuir renda e não aumentar a temperatura), reclamam da conta de luz pelo aquecedor e o chuveiro elétrico (como se o ar condicionado no verão não gastasse nada), de comer demais (chega a parecer que encher a pança é obrigação);
  • Post de futebol, caso seja clubístico (ou seja, sobre o Grêmio), muitas vezes virou aquelas infinitas discussões “grenalizadas” sobre qual é “o maior” e que são uma gigantesca perda de tempo;
  • Já aconteceu também de postar no Facebook coisas relativas a algumas dores e mesmo distensões musculares, com o objetivo de “autozoeira” relativa à minha idade (que obviamente não é avançada a ponto de eu poder se considerado “velho”, mas ainda assim acho divertido brincar com a minha “velhice”), e ao invés de receber mais zoeira, tive de aturar mais uma vez os MALEDETTOS “conselhos” do tipo “me exercitar” (já estou LITERALMENTE careca de saber que o sedentarismo não é bom) ou “fazer academia” (mais uma vez: me pagar a mensalidade que é bom, ninguém quer);
  • E o que para mim é o pior de tudo: quando reclamam de alguma coisa que compartilho e dizem algo do tipo “não posta mais isso”, achando que têm direito de decidir sobre o que vou publicar no MEU perfil.

Alguém pode muito bem dizer que os “conselhos” são “para o meu bem”, e que reclamações contra o frio ou elogios ao calor são “liberdade de opinião”, e isso não deixa de ser verdade. Mas ao mesmo tempo, é por coisas assim que ultimamente navegar pelo Facebook em especial tem sido uma experiência irritante, e por isso tenho preferido muito mais compartilhar posts de humor ou informativos, com um ou outro comentário de futebol preferencialmente não-clubístico (mas quando falo do Grêmio, às vezes me antecipo aos colorados e toco flauta no meu próprio time). Além, é claro, dos links para os textos aqui do Medium.

Só que a última “novidade” do Facebook é que o algoritmo agora vai priorizar mais os posts de perfis pessoais, em detrimento das páginas (muitas das quais têm caráter bastante informativo), e dando prioridade ao que é postado no próprio Facebook. Ou seja, vão aparecer mais selfies do que notícias, mais bobagens e menos coisas relevantes.

Resumindo: o que já era chato, vai ficar ainda mais chato. Vamos ter ainda mais “cagação de regra”, já que os posts se referirão ainda mais a questões pessoais. Mas a “nutricionistas” de plantão (por mim podia ter mil aspas pois não me refiro a quem tem graduação em Nutrição), já aviso: sei que miojo faz mal, só que vou comer de vez em quando caso me dê vontade, cuidem de suas vidas e parem de encher o saco.

Não consigo antipatizar com o inverno

(Talvez se eu morasse no Canadá… TALVEZ.)

O frio começa a diminuir por aqui, e tem até previsão de fazer algum calor. Não vou reclamar. Sempre gostei do inverno, mas um período tão prolongado de temperaturas abaixo da média (desde o final de abril) já estava me fazendo desejar essa “folga”, que me possibilita lavar mais roupas quentes e deixá-las secando o tempo que for preciso, sem preocupação quanto a não ter o que vestir (não, gostar de inverno não quer dizer gostar de passar frio). Fora que para a minha avó, aos 94 anos e com a saúde fragilizada, uma sequência tão grande de dias gelados estava sendo muito complicada.

Mas ainda assim, continuo sem nenhuma saudade do verão. Não adianta: mesmo que o frio tenha vindo em dose exagerada, com o inverno eu me acerto. Continuo simpatizando (ou para ser mais preciso, me identificando) mais com dias gélidos do que com tórridos, pelos motivos que explico abaixo.

Poder caminhar sem suar (e consequentemente, sem feder)

“Suar é da natureza”, já me disseram. Sim, claro. Tão natural quanto tremer de frio…

Tem gente que sua pouco e com 25°C e um ventinho já começa a reclamar de frio (mesmo morando a vida toda no Rio Grande do Sul). Já eu sou exatamente o contrário: com 25°C, umidade elevada e sem vento já começo a suar por qualquer esforço que faça. Qualquer caminhadinha sob tais condições se torna “banho”, e pior ainda é quando todo esse suor “seca” após a temperatura baixar (ou quando o corpo se aquieta): fica aquela “nhaca”, fedorenta e grudenta.

Já com temperatura baixa, nada disso acontece. Dá para caminhar e continuar com a pele seca, sem suar horrores. Banho diário é só para manter o hábito, pois não termino o dia fedendo.

Insetos todos entocados

Sábado (quando a temperatura passou tranquilamente dos 20°C) deixei a janela aberta no começo da noite por alguns minutos. Foi o suficiente para entrar um “bicho de luz” para encher o saco. E também para eu lembrar de como é bom, naqueles dias bem frios, saber que essas “malas sem alça” também conhecidas por “insetos” estão todas encarangadas. Principalmente o Aedes aegypti.

Aliás, nada mais incoerente que ver gente que tem pavor de baratas dizendo “vem verão”: elas também adoram um calorãozinho.

Conta de luz mais barata

No inverno o chuveiro elétrico gasta mais pois é preciso aumentar a potência, fato. Também tem estufa para aquecer o banheiro nos dias mais frios, e mais tempo com luz ligada dentro de casa pois anoitece mais cedo.

Mas nada disso tem o mesmo impacto do que uma noite inteira com o ar condicionado ligado. Para quem vem com o papo do chuveiro elétrico, pergunto como podem ficar oito horas tomando banho… Ah, e já aviso: o meu chuveiro NÃO VAI QUEIMAR – e se porventura isso acontecer, compro um novo ao invés de fazer mimimi no Facebook.

Maravilhas culinárias

“Inverno engorda”, diz a turma do mimimi. “Comer demais engorda”, respondo. Pois calorias, ao contrário do que parece, é ENERGIA e não TEMPERATURA. Tanto é que o sorvete cai maravilhosamente bem no verão por ser gelado, só que na verdade ele ESQUENTA o corpo por ser muito calórico, e por isso os russos costumam consumi-lo no inverno — que por lá é tão rigoroso que chega a receber a alcunha de “general”.

“Mas fondue só se come no inverno”, diz a turma do mimimi. Sim, pois além de ser calórico, ele é bem quente. E na boa, quem REALMENTE não quer engordar, vai dizer “não” ao convite para comer fondue. Eu, como cago e ando para “boa forma”, digo “sim”; e mesmo que não quisesse engordar não iria me culpar por comer fondue de vez em quando, pois não é coisa barata da qual se pode desfrutar toda hora.

Fora que inverno não é só fondue. Um bom “sopão”, com vários legumes e verduras, cai muito melhor no inverno do que no verão.

Tudo isso obviamente acompanhado por um bom vinho — que até pode ser bebido durante o verão (bastando ligar o ar condicionado), mas combina perfeitamente com o inverno.

Acho praia um saco

Ah, a praia… Símbolo-mor do verão. E que eu acho UM SACO.

“Mas nem aquelas belas praias de Santa Catarina?”, podem me perguntar.

Bom, elas são realmente muito bonitas. Mas… Não para passar várias semanas lá, FAZENDO AS MESMAS COISAS, TODOS OS DIAS. Pois “férias na praia” É ISSO. Se eu tivesse escrito um “diário das férias” na última vez que as passei na praia, resumidamente ele seria algo do tipo acordar quase ao meio-dia, almoçar, me deitar um pouco, tomar cerveja, ir para o mar no fim da tarde (quando o sol está baixando, para não precisar passar a bosta do protetor solar), voltar para casa, tomar banho, jantar, dar uma volta pelo “centrinho”, tomar mais cerveja e ir dormir bêbado, sabendo que o outro dia só não seria EXATAMENTE IGUAL se fosse o da volta para Porto Alegre.

Isso quando a praia é tranquila. Pois quando é daquelas “badaladas” em janeiro e fevereiro o pacote “fazer as mesmas coisas, todos os dias” é um pouco mais “generoso”: inclui congestionamentos, filas de supermercado etc. Traduzindo: trocar o caos da cidade grande pelo lugar onde ele passa as férias (fazendo as mesmas coisas, todos os dias).

Se é para ser assim, prefiro ficar na cidade com o ar condicionado ligado: a conta de luz fica mais cara mas gasto menos com ela do que alugando ou mantendo casa ou apartamento na praia.

Minha casa, minha vida

Se recuso convite para sair por causa do calor, não falta quem diga que é “frescura”, e aí vem os malditos conselhos para “ser mais positivo”, “aproveitar a vida” etc. Dá vontade de me vingar usando os mesmos para quem não quer sair por causa do frio…

Mas a verdade é que o fato do frio ser uma “desculpa aceitável” para ficar em casa não me dá vontade de encher o saco dos friorentos. Pois, de fato, eu adoro ficar em casa. Claro que também gosto de sair, caminhar pela rua (e como já disse, é bem melhor quando não está aquele calorão), mas penso que me sentir bem onde moro é fundamental para que eu me sinta bem comigo mesmo.

Sem contar que ficando mais em casa desfruto mais de minha própria companhia e me sinto mais convidado à introspecção. Gosto muito de estar só, seja lendo ou estabelecendo diálogos entre “diversos eus”, coisas que para muita gente parece ser horrível pelo que depreendo do desespero que demonstram quando (que horror!) ficam em casa numa noite de sexta-feira ou sábado: dependendo do programa proposto (uma “balada”, por exemplo), prefiro assistir jogo da Série B na televisão.

As “folgas”, também conhecidas como “veranicos”

A prova maior de que o inverno (pelo menos por aqui) é muito mais “gente boa” que o verão: nunca se passa três meses ou mais com frio. Aliás, esse longo período de dias frios (muitos deles “de renguear cusco”) que vivemos desde o final de abril é exceção e não regra. Para provar que não é “papo de calorento” passo a palavra a Estael Sias, meteorologista da MetSul:

O que estamos ainda experimentando, perto de 60 dias seguidos de frio a muito frio, é uma excepcionalidade. Não é a regra na nossa climatologia local termos um período tão prolongado de frio e com tamanha intensidade. A regra é a variabilidade com jornadas amenas e algumas até quentes se intercalando com períodos frios mais curtos. Se quase 60 dias seguidos constituem uma significativa excepcionalidade, outros 60 seriam uma improbabilidade estatística imensa. Em 1988, como agora, maio e junho foram gélidos. Julho foi ainda frio, mas agosto já foi mais quente do que o normal. Qual nosso ponto? Que é improvável que os próximos 50/60 dias (inverno) sejam tão frios quanto foram os últimos 50/60 dias (outono).

Ou seja, o tal “rigoroso inverno gaúcho” na verdade é, via de regra, bem “camarada”: tem alguns dias muito frios, mas também costuma “tirar folga”. Vez que outra esse “descanso” dura uma semana ou até mais: são os famosos “veranicos” que, ao contrário do que diz o ditado, não acontecem só em maio (para ver como o que vivemos em 2016 foi exceção, não houve sequer um dia de calor em maio). E em alguns anos o que se chama de inverno mais parece um “verão com folgas” (seriam “invernicos”?), como se viu em 2015 (fez mais calor em agosto do que em novembro, para se ter ideia).

Rigoroso mesmo é o verão, com no mínimo três meses de calor contínuo (e muitas vezes desesperador, caso de 2014) e que raríssimas vezes “tira folga”. Sem contar que não lembro de alguma vez ter usado blusão de lã em janeiro, mas muitas vezes já vesti bermuda em julho.

A eterna mania de ser do contra

E mesmo que não tivesse os motivos acima, um só já seria suficiente: o senso comum pinta o inverno como uma época de “tristeza”, em contraste a uma suposta “felicidade geral” do verão. Alguém acha que eu não contestaria tal “verdade absoluta”?

Fracasso debutante

Em comum com hoje, o tempo. Lembro que 17 de junho de 2001 foi um domingo frio em Porto Alegre. Fui agasalhado assistir ao jogo na casa do meu amigo Marcel, junto a mais vários gremistas. A missão parecia difícil: a primeira partida, disputada uma semana antes no Olímpico, acabara empatada em 2 a 2, e por isso o Grêmio subia ao gramado do Morumbi perdendo o título para o Corinthians (ao qual serviriam os empates em 0 a 0 e 1 a 1). Só parecia mesmo: com uma das maiores atuações de sua história, o Tricolor venceu só por 3 a 1 e levantou pela quarta vez a Copa do Brasil.

Fizemos muita festa, e merecida. Mas se soubéssemos o que viria pela frente, provavelmente teríamos festejado ainda mais. Pois desde então, as únicas taças levantadas pelo Grêmio foram a Série B de 2005 e os Gauchões de 2006, 2007 e 2010. E o fim desta “seca” de conquistas relevantes não parece estar tão próximo: várias vezes nos últimos anos o Tricolor chegou a empolgar mas tremeu nos momentos decisivos (é, colorados, agora eu entendo bem como vocês se sentiam na década de 1990).

Mas o objetivo desse texto não é de análise dos motivos pelos quais o Grêmio não ganha nada, nem falar sobre os nossos sentimentos por conta da data (por incrível que pareça, quem escreveu o melhor texto acerca disso foi o colorado Douglas Ceconello). Quero apenas fazer um comparativo entre o dia de hoje e aquele em que, acreditem, comemoramos algo que não fosse Série B ou Gauchão (e ultimamente nem isso). Reparem que chega a parecer que se passaram MAIS de 15 anos. Pois em 17 de junho de 2001:

  • O Inter não ganhava nada de relevante desde 1992 (e aquela Copa do Brasil fora “fato isolado”, pois antes o jejum vinha desde o Campeonato Brasileiro de 1979);
  • Roger Machado, nosso técnico atual, tinha 26 anos de idade e JOGOU aquela final;
  • Grêmio e Inter estavam empatados em títulos gaúchos, com 33 para cada um;
  • Eu tinha 19 anos e cursava FÍSICA (isso mesmo) na UFRGS;
  • Pessoas com seis meses de idade tinham nascido no século passado;
  • O presidente do Brasil era Fernando Henrique Cardoso;
  • O PT estava em alta no Rio Grande do Sul: Tarso Genro era prefeito de Porto Alegre e Olívio Dutra governava o estado;
  • George W. Bush tinha assumido poucos meses atrás a presidência dos Estados Unidos;
  • Ninguém imaginava que dois aviões iriam derrubar as torres gêmeas do World Trade Center (sim, elas ainda estavam em pé);
  • Um mapa-múndi produzido apenas 10 anos antes daquela final teria um imenso país chamado União Soviética;
  • Celular ainda era chamado de celular (jamais chamarei de “smartphone”) e sua principal função era, pasmem, FAZER CHAMADAS (e nem todos os aparelhos enviavam mensagens);
  • Internet banda larga ainda era “luxo”, simples mortais acessavam por conexão discada (e após a meia-noite, para pagar apenas um “pulso”);
  • E entravam no ICQ para contatar amigos que, em sua maioria, já conheciam presencialmente;
  • Na fila do banco não dava para conferir o Facebook ou o WhatsApp: era preciso ter paciência e esperar;
  • Aliás, nem Orkut existia (surgiu em 2004);
  • Não havia tanta zoeira no Twitter pelo simples fato de que ele só surgiria em 2006;
  • E colorados não tinham como escrever um texto no Medium sobre o jejum deles, pois não existia Medium.

Um alento: se até 2021 o Grêmio ganhar algo de relevante e o Inter ganhar o DECACAMPEONATO estadual e nada mais, daqui cinco anos seremos nós, gremistas, que zoaremos um jejum colorado de 10 anos: a única taça de expressão que eles levantaram foi a Recopa de 2011.

E de qualquer jeito, se não vier nada esse ano, em 2017 é garantido: o jejum completará 16 anos e com isso poderá fazer o TÍTULO ELEITORAL.

Notas frias

Quando falo que gosto do inverno e listo como um dos motivos a sensação de aconchego ao me enrolar em um cobertor, sempre vem MALAS dizerem que se eu gosto de frio deveria sair na rua sem camisa (ou os espíritos-de-porco que desejam a queima do meu chuveiro, como se isso fosse me fazer mudar de ideia). Por essa ótica quem gosta de verão não deveria ir para a praia, pois lá costuma fazer menos calor que na cidade. Mas além de irem, ainda pedem para quem gosta do frio MANDAR NUDES na geada.

Mais engraçado é quando reclamam do frio e pedem que chegue o verão logo para mim, como se EU tivesse alguma culpa da Antártida ter terminado a GREVE iniciada no final de 2013. Pois olha só: se eu comandasse o clima, nem sob a mira de uma BAZUCA deixaria o verão voltar, no máximo teríamos primavera. Ou seja, estão reclamando para a pessoa errada.

Fora quem me olha de maneira censuradora por gostar do frio e assim supostamente ser insensível ao sofrimento dos mais pobres no inverno. Ora, eles sofrem em qualquer época do ano, e tenho um palpite de que se não fosse o inverno a pobreza seria ainda mais invisível (pois para muita gente parece que é só esquentar que acabam os problemas para os pobres). É isso é um motivo a mais pelo qual eu sou de esquerda: quero a redução da pobreza.

A propósito, a quem vota na direita e acha que o calorão dos infernos é solução para quem sente muito frio, uma lembrança: urna eletrônica não é TERMOSTATO, se você digitar “45” a temperatura não subirá ao nível “Forno Alegre”. Ao contrário, vai é aumentar o sofrimento dos mais pobres no inverno.


É verdade que nem tudo é bom nesta onda de frio (que chega a parecer uma “resposta” àqueles terríveis dias do verão de 2014, com três semanas seguidas de tempo desesperador). Para a minha avó, que está com a saúde bastante frágil, os últimos dias tem sido bem complicados: por mim poderiam vir uns dias amenos para ela ter um “alívio”. Mas pedir o verão de volta? Não sou suficientemente louco para isso.

Não posso assistir à Rede Globo

Em casa, minha televisão quase nunca sintoniza a “plim-plim”. O “quase” se deve ao Grêmio: quando o jogo só passa na Globo, assisto-a por pura falta de opção.

Porém, quando não estou em casa algumas vezes acabo assistindo-a mesmo quando o Grêmio não está em campo. Nesta quinta o jogo nem passou na Globo, mas depois do apito final a TV foi sintonizada justamente na “plim-plim”.

O que estava ruim (televisão na Globo) ficou pior com o início do “Jornal da Globo”, aquele antro de reacionarismo. Após uma reportagem sobre a Venezuela (à qual não prestei muita atenção), entrou em cena Arnaldo Jabor.

Começou deitando falação acerca de “comunismo”, “bolivarianismo” etc. Disse tanta merda que nem prestei atenção em tudo. Mas aí depois COMETEU um “comentário” sobre a Venezuela e sua complicada situação* serem uma visão de como seria o Brasil se o “governo bolivariano de Dilma Rousseff” tivesse continuado.

Sim, é isso mesmo. “Governo bolivariano”. Aquelas bobagens das correntes de WhatsApp e dos carnacoxinhas sendo ditas ao vivo em um telejornal da maior emissora do país (ou será que era o contrário, as correntes e os carnacoxinhas que repetiam feito papagaios as idiotices ditas na Globo?). Sendo que o governo do PT em seus 13 anos, 4 meses e 12 dias de duração jamais esteve sequer perto de ser “bolivariano”.

Sorte que eu não estava com um copo na mão, pois se estivesse é bem possível que ele se espatifasse na televisão, de tão irritado que fiquei com tamanha DIARREIA MENTAL. E depois não entendem porque não assisto à Globo…


* Não quis me estender sobre a situação da Venezuela por não ser o assunto principal do texto e não querer que ele fique muito longo.

Baixada, 8°C: um relato sobre futebol e resistência

Quem teve a ideia desta faixa não merecia os 7 a 1

Quem teve a ideia desta faixa não merecia os 7 a 1

Não fosse o carrinho sofrido pela gandula Luana (que felizmente não lhe causou uma lesão com maiores gravidades, apenas dores no tornozelo), a partida da quarta-feira da semana passada entre São Luiz e Caxias, no Estádio 19 de Outubro, seria ignorada pelos veículos da mídia tradicional que não fossem de Ijuí e Caxias do Sul. Ainda mais que o lance inusitado acabou sendo o destaque do prélio válido pela Divisão de Acesso do Gauchão e que acabou empatado em 0 a 0, mais frio do que aquela noite. O público ficou aquém do esperado para um jogo de tal importância (além de ser o Caxias, o São Luiz precisava muito da vitória), mas compreensível dadas as condições climáticas e as atrações futebolísticas disponíveis na televisão (como a partida entre Atlético-MG e São Paulo, pelas quartas-de-final da Libertadores).

Pressão — que não surtiu efeito — para o juiz expulsar o jogador do Caxias que acertou a gandula

Pressão — que não surtiu efeito — para o juiz expulsar o jogador do Caxias que acertou a gandula

Mas não é exatamente sobre o jogo que eu gostaria de falar. Pois a ideia deste texto surgiu após a leitura deste aqui, escrito no mês passado por Gilberto Junior, narrador da Rádio Caxias que tem algo em comum comigo: nasceu e começou a acompanhar futebol em Porto Alegre, para mais adiante se mudar para o interior por motivos profissionais — no meu caso, passei em um concurso público, fui nomeado e não havia vagas na capital ou cidades próximas, escolhi Ijuí em detrimento de Livramento, Santo Ângelo e Uruguaiana. E pensei: “sem futebol não fico, vou aos jogos do São Luiz”.

Não fui ao estádio sempre, pelos mais variados motivos — hoje, por exemplo, estava indisposto e fiquei em casa e por isso acompanhei pelo rádio o “clássico dos empates” São Luiz x Tupi de Crissiumal (TODOS os jogos entre os dois times desde 2015 terminaram com igualdade no placar). E no caso da noite da quarta-feira da semana passada, ela era muito convidativa a ficar em casa: poderia ligar a televisão e assistir ao jogo Atlético-MG x São Paulo no conforto do sofá, enrolado em um cobertor e tomando um cálice de vinho. Mas ainda assim resolvi encarar o frio na Baixada para apoiar o Rubro contra o Caxias (fortíssimo candidato à única vaga disponível para a Primeira Divisão de 2017).

Afinal, o que leva alguém a trocar um jogo de Libertadores no conforto do sofá de casa pelo cimento gelado para assistir a uma partida válida por uma divisão inferior estadual? (Se eu falar só por mim, não vale: embora eu tenha comprado camisa do São Luiz e faça questão de apoiar o time no 19 de Outubro, isso se deve mais à minha situação atual de residente em Ijuí — se fosse nomeado para trabalhar em Rio Grande, provavelmente eu iria muitas vezes ao Arthur Lawson torcer pelo Vovô, como já fiz em uma partida da Divisão de Acesso em 2012. Mesmo que eu me mude para outra cidade e siga acompanhando o São Luiz à distância, a minha identificação com o Grêmio continuará maior, já que vem desde criança.)

Para explicar, volto ao texto do Gilberto que citei três parágrafos atrás, destacando um trecho:

Nos jogos que transmito no Estádio Centenário e no Alfredo Jaconi, encontro tanta paixão dos torcedores, ou até mais, do que encontrava no Beira-Rio e no antigo Olímpico. Algumas pessoas irão perguntar, como assim? Tanta ou mesma paixão se os estádios dificilmente lotam? Respondo. É fácil torcer para times multicampeões. É fácil lotar estádios, em badalados jogos de Libertadores ou Copa do Brasil, é conveniente demais vender todos os ingressos de uma partida de luxo contra o Flamengo. Mas resistir a toda uma pressão do sistema para torcer pelos times grandes, isso sim é complicado. Num futebol em que as opções para torcer pelos clubes de elite são diversas, in loco ou a distância, já que o futebol internacional é despejado em nossos lares pelas grandes redes de TV. Preferir a arquibancada, nem sempre confortável, numa noite chuvosa, com neblina, com temperatura baixa, é sim uma prova de amor. Principalmente, quando se encara todas estas dificuldades, estes convites para não sair de casa, para encarar um jogo de terceira ou quarta divisão nacional. Isso é amar de verdade um clube de futebol, independente da divisão ou série que se está.

A dupla Gre-Nal disputa competições nacionais e internacionais, tem calendário o ano todo e partidas transmitidas tanto pela televisão aberta como pela fechada (além dos pacotes de pay-per-view). Já clubes como o São Luiz jogam profissionalmente apenas por um curto período do ano (a temporada de 2015 terminou em junho e provavelmente vá acontecer o mesmo em 2016, com a praticamente consumada eliminação da Divisão de Acesso) e só tem suas partidas transmitidas pela TV quando enfrentam Grêmio ou Inter, mas raramente em Porto Alegre. Ou seja, é muito mais fácil dar de ombros para o time da cidade e simplesmente ser gremista ou colorado mesmo morando a centenas de quilômetros da Arena ou do Beira-Rio.

Mas ainda assim, tem gente que resiste. Que participa de torcidas organizadas, enfrenta sol abrasador, chuva com vento, frio intenso, tudo isso para apoiar clubes cujas suas máximas ambições são “quase nada” em comparação com as dos grandes. São pessoas que desafiam a ideia cada vez mais hegemônica de que a função dos times do interior é de meros coadjuvantes em campeonatos estaduais que, da maneira como estão, só interessam à “grande mídia”.

E uma coisa eu prometo. Se voltar a morar em Porto Alegre, no dia em que o São Luiz for jogar na capital vestirei a camisa e irei ao estádio (de preferência, ao Beira-Rio) para apoiar o Rubro. Pelo carinho pelo time e pela cidade que me acolheu, mas também pela resistência.tor

Por que é golpe

A presidenta Dilma Rousseff foi afastada do cargo e, pelo que o número de senadores favoráveis ao impeachment indica, não retornará ao Palácio do Planalto para completar o período presidencial que termina em 31 de dezembro de 2018. Ou, para ser mais exato: Dilma sequer iniciará seu segundo mandato, pois a oposição, que não aceitou a derrota na eleição de 2014, não deixou que a presidenta exercesse seu papel de governar após a reeleição.

Desde que se começou a falar em impeachment, ainda em 2014, vinha sendo alertado que, na verdade, se tratava de uma nova modalidade de golpe. Pois aquela tradicional da direita latino-americana, com tanques e soldados armados na rua, fracassou na última vez que foi tentada (Venezuela, 2002). Era necessário dar uma aparência de legalidade, para que os golpes não fossem vistos como golpes. Começou em Honduras (2009), quando a Justiça emitiu uma ordem de prisão contra o presidente Manuel Zelaya devido à convocação de um plebiscito considerado inconstitucional, mas esta foi cumprida pelo Exército, que foi além do que estava determinado e mandou o governante embora para a Costa Rica: até os Estados Unidos disseram que foi um golpe. Foi aperfeiçoada no Paraguai (2012): o presidente Fernando Lugo não foi preso mas sofreu um processo-relâmpago de impeachment que teve como justificativa um conflito agrário do qual resultaram 16 mortes; o chefe do Executivo apenas duas horas para se defender e acabou destituído, sendo substituído pelo vice Federico Franco (cujo partido abandonara a coalizão de centro-esquerda que vencera a eleição presidencial de 2008), e após a deposição manifestantes favoráveis a Lugo foram fortemente reprimidos.

E assim chegamos ao Brasil de 2016. Em comum com o Paraguai, a forma da deposição de Dilma: um impeachment, instrumento previsto em lei e que já fora utilizado em 1992 contra Fernando Collor. E também a motivação: interesses escusos. O crime de responsabilidade atribuído a Dilma foi a prática das “pedaladas fiscais”, mas se não fosse esse achariam outro (talvez dissessem que vencer a eleição de 2014 foi crime); o processo foi deflagrado como uma vingança de Eduardo Cunha (presidente da Câmara dos Deputados) contra o PT, pelo partido ter decidido votar por sua cassação; e por fim, assim como Federico Franco, o vice Michel Temer (com seu partido, o PMDB) rompeu com o governo para derrubá-lo (ao contrário de Itamar Franco em 1992, que só após Collor ser afastado definiu o ministério e chegou a solicitar o adiamento de sua posse como presidente interino por conta disso).

Só que quando se fala que foi golpe, que Michel Temer não foi eleito, eis que aparece a foto da urna mostrando um voto em Dilma Rousseff com o nome de Michel Temer abaixo, “prova” de que o vice tem legitimidade e, portanto, quem votou em Dilma não pode reclamar.

Sim, quem votou em Dilma para presidenta também elegeu Temer vice, a quem cabe substituir a titular em situações como o impeachment. Mas, repare no número digitado na urna eletrônica. É o “13”, do PT, partido de Dilma. Não foi o “15”, do PMDB de Temer. Ou seja, foi um voto favorável a uma chapa encabeçada pelo PT (de Dilma), não pelo PMDB (de Temer).

A suada reeleição de Dilma em 2014 se deveu a muitos fatores, mas dentre eles um dos principais foi a manutenção de um projeto político iniciado por Lula em 2003 e que vinha fazendo do Brasil um país melhor, com menos pobreza e melhor distribuição de renda. Um projeto com muitos problemas e que já apresentava sinais de desgaste, mas que se distinguiu do que o antecedeu (de direita, representado por Aécio Neves na última eleição presidencial) por seu viés mais social. Apesar de algumas concessões inaceitáveis, ainda assim podemos dizer que era um projeto de centro-esquerda (até mais centro do que esquerda).

Então, Dilma é afastada, Temer assume de forma interina, e faz o quê? Adota um projeto semelhante ao que foi rejeitado pelas urnas menos de dois anos atrás. Sem o respaldo que seria dado por uma eleição direta (ou seja, com votos de milhões de brasileiros, não só de deputados e senadores). Por mais que faça sentido o chamado à “união nacional” em momentos de crise (com direito a convidar políticos de oposição para integrar o governo), repare que o partido que encabeça a chapa eleita em 2014 (ou seja, o PT) ficou de fora do ministério: você ainda acha que não é golpe?

O governo de Michel Temer, portanto, nasce sem legitimidade alguma. Mas sabe como “se legitimar”: usará para isso a baixa popularidade de Dilma e, principalmente, os protestos “verde-amarelos” que ocorreram contra a presidenta.

Ou seja, se você que gritou “fora Dilma” ficar descontente com o governo Temer, não queira jogar a culpa em quem digitou “13” na urna em 2014. Como diz o ditado, “toma, que o filho é teu”.

Quando transformam uma cuspida em tiro

É tão comum que já nem surpreende mais. Ao noticiar qualquer manifestação em que haja violência policial, boa parte da imprensa de forma alguma usa a palavra “repressão”. No máximo fala em “ação da polícia”. Mas a regra é dizer que houve “confronto”, pouco importando que fossem policiais disparando balas de borracha contra estudantes desarmados (ou que, no máximo, jogam pedras). Tanto é que recordo de ter tirado sarro no dia daqueles 7 a 1: para os jornais, foi um “confronto”.

Quando se fala em “confronto”, o objetivo é “igualar” ambos os lados da questão. “Confronto entre PM e estudantes”: não importa que a polícia massacre manifestantes que agiam pacificamente, é preciso passar a ideia de que havia “igualdade de condições” para que desta forma a violência policial não seja questionada e, inclusive, ganhe “legitimidade”.

Tal padrão é aplicado a tudo o que questione o poder, o status quo. Qualquer ação mínima contra ele é tratada como se fosse “equivalente” à reação subsequente. É apenas parte da ação da velha mídia conservadora que “molda” as opiniões das pessoas, formando o famoso “senso comum”.

E aí chegamos a um assunto muito falado nas últimas duas semanas: a cuspida de Jean Wyllys em Jair Bolsonaro.

“Ah, o Bolsonaro diz coisas horríveis mas é errado cuspir nele, com isso o Jean acabou se igualando”, diz o “senso comum”.

Pois bem: em tese, Jean teria realmente se “rebaixado”. Ao invés de argumentar ou simplesmente deixar Bolsonaro para lá, partiu para a cuspida na cara do adversário.

Porém, é preciso atentar para outro aspecto: o SIMBOLISMO de tal ato.

Jair Bolsonaro entrou na política em 1988, quando foi eleito vereador no Rio de Janeiro; dois anos depois se candidatou (com sucesso) a deputado federal, cargo que exerce até hoje. Ou seja, já são quase 30 anos de “serviços prestados” ao Brasil. Nesse tempo todo não sofreu NENHUMA represália institucional por cada absurdo que cometeu (com direito a defender o fuzilamento do então presidente Fernando Henrique Cardoso em 1999) e com isso o “monstro” foi alimentado, cresceu, e então chegamos ao triste 17 de abril de 2016, quando Bolsonaro dedicou seu voto favorável à deposição de Dilma ao falecido torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra: sim, tivemos um PARLAMENTAR (que por pior que seja foi ELEITO) dedicando um voto a alguém que TORTUROU opositores durante um regime DITATORIAL.

Minutos depois, Bolsonaro enfim sofreu alguma represália no Congresso. Só que não foi institucional, não foi por parte da casa: veio na forma de saliva.

Óbvio que o ato de Jean Wyllys não acaba com o problema. Bolsonaro provavelmente não sofrerá nenhuma punição (como já estamos acostumados a ver) e não é de se duvidar que acabe sobrando para Jean. E como já falei, Bolsonaro foi eleito (e em 2014 foi o mais votado em seu colégio eleitoral, o estado do Rio de Janeiro), ou seja, seus absurdos infelizmente representam uma considerável e crescente parcela da sociedade; não ao acaso, o deputado cogita concorrer à presidência em 2018.

Só que a cuspida de Jean Wyllys deve ser entendida, como já disse, pelo simbolismo. Pois os discursos odiosos proferidos por Bolsonaro atingem diversos grupos sociais, e Jean representa dois dos principais alvos: homossexuais e a esquerda de forma geral. A cuspida, portanto, “lavou a alma” de muita gente que há quase 30 anos vê com indignação Bolsonaro falando sem nenhum constrangimento coisas que o levaram a ser apontado como “o político mais repulsivo do mundo” por um site australiano.

Em compensação, eu não vibrei quando soube de outra cuspida, a do ator José de Abreu em pessoas que o ofendiam em um restaurante japonês em São Paulo. Pelo contrário, achei lamentável: foi um ato sem simbolismo algum, quando o ideal seria simplesmente deixar os agressores falando sozinhos e cumprindo seus papéis de idiotas. Embora seja bem verdade que uma coisa é opinar sobre o fato sentado no sofá, e outra é “sentir na pele”: assim como José de Abreu, eu não tenho “sangue de barata” e bem sei que, quando “apanhamos calados” (física ou simbolicamente), chega um momento em que não aguentamos mais e reagimos, muitas vezes de maneira desproporcional e até mesmo contra quem não fez algo por merecer tal resposta grosseira.

Relações complicadas

Semana passada li um texto muito interessante de Ivana Ebel acerca de uma característica das redes sociais que é muito bacana mas também pode ser um problema: a possibilidade de reencontrar pessoas que não víamos há muito tempo, amizades dos tempos de infância, ex-colegas do colégio etc. Não é exatamente algo “novo”, pois o experimentamos desde 2004 por meio do “falecido” Orkut — graças às saudosas “comunidades” foi possível promover reencontros presenciais de turmas que tinham sido separadas pelo andar da vida. Cinco, dez anos depois, aquele monte de pessoas que há tempos não se falavam tinham a possibilidade de “voltar ao passado”, reviver a sensação de serem vizinhos, colegas de aula etc.

Porém, havia um detalhe importante: não eram mais as mesmas pessoas daquele tempo. Eu não era mais o mesmo.

Serei desonesto se disser que não valeu a pena rever certas pessoas. Teve gente que reencontrei após mais de 10 anos e a sensação era de que não havia se passado tanto tempo, pois muitas coisas ainda nos identificavam além de um mero passado em comum. Em compensação, de outras pessoas me afastei por bem menos tempo e quando voltei a vê-las pareciam ser estranhas que nunca tinham convivido comigo.

Só que hoje em dia, todo mundo é “amigo” no Facebook. Tanto pessoas pelas quais realmente nutro amizade (inclusive algumas que nunca vi “ao vivo”, coisa que a internet nos proporciona atualmente) como aquelas que estão na lista única e exclusivamente por terem sido colegas de colégio, de faculdade, de trabalho; além de certos parentes que nem faço muita questão de encontrar. Algumas destas últimas que “fazem número” nos contatos do Facebook se limitam a apenas figurarem na lista, mas outras se metem a dar pitaco nos posts (nem preciso dizer que são de direita, né?) e me levam a pensar no quanto de gente adicionei sem muito critério.

Assim como algumas velhas amizades e relações de parentesco acabam se tornando complicadas justamente por conta dos posts no Facebook: como já falei lá no começo, não somos mais as mesmas pessoas que éramos quando nos conhecemos, e certos amigos o são justamente porque circunstâncias de época (ser colega de aula ou de trabalho, morar na mesma rua etc.) favoreceram o surgimento de tal sentimento, que se manteve com o passar do tempo e sobreviveu a diversos obstáculos. Nem digo que concordássemos em tudo anos atrás (não há pessoa que seja 100% igual à outra), mas sim que aspectos hoje valorizados não o eram antes: quando criança/adolescente me tornei amigo de pessoas de direita e isso é bem mais difícil de acontecer na atualidade — o que não quer dizer que eu simplesmente vá romper a amizade com elas, pois temos uma trajetória em comum que não vai ser desprezadaassim, “do nada”.

Mas já começo a pensar que talvez a melhor maneira de manter a amizade com certas pessoas é não tê-las na lista de contatos do Facebook. Assim se briga menos e se valoriza mais o que há em comum.

Por que não quero filhos

Já faz um bom tempo que, quando questionado sobre ter ou não filhos, respondo que a paternidade não faz parte de meus planos.

Em resposta, sempre ouvi argumentos mais ou menos semelhantes (vou escrever conforme o falado, ou seja, em “gauchês”, sem respeitar as regras gramaticais):

  • “Tudo bem, tu ainda é muito novo”;
  • “Quando tu achar a companheira ideal vai mudar de ideia”;
  • “Ter filhos faz parte do processo de amadurecimento, de assumir responsabilidades na vida”;
  • “Mas a tua mãe e o teu pai não querem netos?”;
  • “E quem vai cuidar de ti na velhice?”;
  • “Tu não gostaria de deixar um legado?”

Agora, farei meus comentários acerca de tais argumentos — que também explicam as razões pelas quais prefiro não ser pai.

Em primeiro lugar, obviamente, o tocante à idade, que a cada dia faz menos sentido — tanto é que ultimamente não tem sido utilizado. Afinal, em pouco mais de seis meses completarei 35 anos, idade na qual, segundo meu pai, “deixamos de ser imortais”, por corresponder aproximadamente à metade do tempo estimado de vida (embora atualmente ele já seja superior aos 70 anos). Definitivamente, se não quero ter filhos não é mais por ser “muito novo”.

Sobre a “companheira ideal”, hoje em dia penso que se ela é mesmo “ideal” também não quer filhos. Aliás, a “companheira ideal” além de não querer ser mãe também seria bonita (dentro dos meus critérios de beleza), gremista, de esquerda, e amante de vinhos, macarronadas, cães, gatos, dias frios, livros bons (dentro do meu critério de “livros bons”), filmes bons (dentro do meu critério de “filmes bons”), música boa (dentro do meu critério de “música boa”)… Na verdade nem vale a pena listar características da “companheira ideal” pois depois vem a vida para fazer picadinho dessa lista, mas tambémnão é certo a mulher que quer filhos abrir mão de seu desejo por causa de qualquer homem — ou seja, certamente eu não sou o “companheiro ideal” para ela.

Quanto ao tal “amadurecimento” e o papo de “responsabilidade”, chega a ser ridículo. Existem inúmeras maneiras de se demonstrar maturidade, e a capacidade de tomar decisões (como a de ter ou não filhos) é uma delas. Sem contar que pessoas responsáveis sabem que assumir responsabilidades para as quais não têm vocação ou não estão preparadas é uma atitude extremamente… Irresponsável.

Já em relação a um hipotético desejo de mãe e pai por terem netos… Bom, eu tenho irmão — e se ele quiser, terá filhos.

Sobre “cuidar de mim na velhice”, considero um dos motivos mais egoístas para se pôr crianças no mundo. Sempre achei que uma das razões para se ter filhos seria dar amor a eles e educá-los de modo a que sejam pessoas que façam bem ao mundo, e não apenas “pensar na velhice”.

E por fim, a questão do “legado”, que deixei por último não por acaso: é sobre a qual mais desejo falar.

O tal “legado” que eu poderia deixar tendo filhos seria o que falei no antepenúltimo parágrafo: pessoas que façam bem ao mundo. Que sejam a tão falada “mudança necessária”. Porém, olhando ao meu redor percebo que, educadas à minha maneira, seriam exceções em uma sociedade que cada vez mais rejeita a tolerância e a diversidade: mesmo que lutar por uma causa ajude a dar sentido à vida, ao mesmo tempo isso pode resultar em sofrimento se o seu ideal for estigmatizado.

Além disso, antes de querer gerar uma vida a mais, é necessário olhar para o futuro. E ele não me parece nada agradável, ao menos no tocante ao Brasil: quero muito estar enganado, mas provavelmente penaremos por vários anos sob governos de direita (seja pela deposição de Dilma ou pelas urnas em 2018), que acabarão com muitas conquistas recentes e mandarão para o espaço alguns direitos históricos como os trabalhistas, também impedirão avanços que ainda não aconteceram, e sabe-se lá quais outros retrocessos virão. Não é o país no qual eu gostaria de crescer — e por isso não quero ser responsável pelo crescimento de outra(s) pessoa(s) em tais condições.


Reparem que não falei o clássico “filhos dão muita despesa”, pois o conceito de “despesa” é muito relativo: penso em adotar gatos, mas eles também têm seus custos (“despesas” para quem não curte felinos) e por isso ainda estou avaliando bem a ideia.

E se falei que não gostaria de crescer no Brasil atual (e por isso não teria filhos), isso obviamente quer dizer que em outro país eu poderia pensar diferente. Mas no momento a emigração está fora de questão — embora seja algo a se pensar mais adiante, dependendo do que acontecer.