Da importância do futebol

jeanmarie

Faixa levada por torcedores ao Beira-Rio em 17 de junho de 1972, quando o estádio colorado registrou o maior público de sua história (cerca de 110 mil pessoas) para o jogo entre um combinado Gre-Nal e a Seleção Brasileira. “Jean Marie” era o nome de batismo de João Havelange, presidente da CBD (1956–1974) e da FIFA (1974–1998). A revolta era pela ausência de jogadores do Rio Grande do Sul (em especial o lateral-esquerdo Everaldo, do Grêmio, titular na Copa do Mundo de 1970) na Seleção que jogaria a Copa Independência, torneio comemorativo aos 150 anos da Independência do Brasil. Mas havia mais coisas em jogo do que uma escalação de futebol. (Foto: reprodução Folha Esportiva, 19 de junho de 1972, p. 27)

Um vazio assombroso: a história oficial ignora o futebol. Os textos de história contemporânea não o mencionam, nem de passagem, em países onde o futebol foi e continua sendo um símbolo primordial de identidade coletiva. Jogo, logo sou: o estilo de jogar é uma maneira de ser, que revela o perfil próprio de cada comunidade e reafirma seu direito à diferença. (Eduardo Galeano, Futebol ao Sol e à Sombra. Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 243–244.)

Dizem que o Brasil é o “país do futebol”. É uma expressão um tanto arrogante, visto que tal esporte não é uma paixão exclusivamente brasileira. Afinal, como definiríamos a Inglaterra, “terra natal” do futebol regrado da maneira como conhecemos (com pouquíssimas alterações desde 1863)? E a Argentina, com Maradona sendo literalmente tratado como divindade (até uma igreja foi criada)? Da Alemanha é melhor nem falar muito, devido a traumas recentes…

Mas, se admitirmos que o Brasil é “o país do futebol”, como explicar que ele seja ignorado na maioria dos livros sobre a história do país? No máximo se fala da Copa do Mundo de 1970 devido a seu escancarado uso político pela ditadura. E só. Mesmo que o futebol tenha um intenso poder de mobilização para a população brasileira.

Imaginemos os historiadores em 2063, por exemplo. Já terão um distanciamento de 50 anos dos grandes protestos acontecidos em 2013, também chamados de “Jornadas de Junho” em referência ao mês de seu auge. E, assim, um melhor entendimento do significado histórico deles para o Brasil (ou alguém acha que no dia 14 de julho de 1789 a multidão que tomou a Bastilha, por exemplo, imaginava que seu ato seria celebrado mais de 200 anos depois?).

Porém, qualquer texto histórico sobre os protestos de 2013 que ignorar o futebol estará incompleto, seja escrito em 2018, 2063 ou 2113. Pois o auge das manifestações se deu na segunda quinzena de junho, justamente enquanto o Brasil recebia a Copa das Confederações (um “teste” da FIFA para a Copa do Mundo de 2014). A pauta inicial era o aumento das tarifas do transporte público em várias cidades, mas logo passou à baixa qualidade de serviços públicos como educação e saúde enquanto os eventos da FIFA, eleitos como “vilões”, eram realizados em modernos estádios. Mesmo que ainda seja difícil a contextualização histórica daquele junho de 2013, é um tanto óbvia a necessidade de se levar em conta o futebol para o melhor entendimento do que aconteceu.


Quanto à foto lá de cima, o acontecimento no qual ela foi batida será tratado mais adiante, com maior detalhamento. Pois assim como em 2013 não foi só pelos 20 centavos, em 1972 não foi só pelo Everaldo.

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